os dothrakis. Restavam menos de uma centena.
Com quantos começara Aegon?, perguntou ela a si
mesma. Não importava.
- Serão o meu khalasar - disse-lhes. - Vejo os rostos de
escravos. Liberto-os. Tirem as coleiras. Partam se quiser,
ninguém lhes fará mal. Se ficarem, serão como irmãos e
irmãs, maridos e esposas - os olhos negros observavam,
cautelosos, sem expressão. - Vejo crianças, mulheres, os
rostos enrugados dos idosos. Ontem era uma criança.
Hoje sou uma mulher. Amanhã serei velha. A cada um
de vocês digo: deem-me suas mãos e os seus corações, e
haverá sempre lugar para todos - virou-se para os três
jovens guerreiros do seu khas. - Jhogo, a você ofereço o
chicote de cabo de prata que foi meu presente de
noivado, nomeio-o ko e peço que jure que viverá e
morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu
lado para me manter a salvo do mal.
Jhogo aceitou o chicote de suas mãos, mas o rosto
mostrava confusão.
- Khakesi - disse hesitantemente -, isto não se faz. Seria
uma vergonha ser companheiro de sangue de uma
mulher.
- Aggo - chamou Dany, sem prestar atenção às palavras
de Jhogo. Se olhar para trás, estou perdida. - A você
ofereço o arco de osso de dragão que foi meu presente de
noivado - tinha dupla curvatura, era de um negro
brilhante e requintado, mais alto que ela. - Nomeio-o ko,
e peço que jure que viverá e morrerá como sangue do
meu sangue, cavalgando ao meu lado para me manter a
salvo do mal,
Aggo aceitou o arco com os olhos baixos.
- Não posso dizer essas palavras. Só um homem pode
liderar um khalasar ou nomear um ko.
- Rakharo - disse Dany, virando as costas à recusa -,
você ficará com o grande arakh que foi meu presente de
noivado, com ouro incrustado no cabo e na lâmina. E
também o nomeio ko, e peço que jure que viverá e
morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu
lado para me manter a salvo do mal.
- É khaleesi - disse Rakharo, recebendo o arakh. -
Cavalgarei ao seu lado até Vaes Dothrak sob a Mãe das
Montanhas, e a manterei a salvo do mal até ocupar o seu
lugar com as feiticeiras do dosh khaleen. Não posso
prometer mais.
Ela acenou, tão calmamente como se não tivesse ouvido
sua resposta, e virou-se para o último de seus campeões.
- Sor Jorah Mormont - disse -, primeiro e maior dos meus
cavaleiros, não tenho presente de noivado para lhe
oferecer, mas juro que um dia receberá das minhas mãos
uma espada longa como o mundo nunca viu outra igual,
forjada por um dragão e feita de aço valiriano. E quero
pedir também seu juramento.
- É seu, minha rainha - disse Sor Jorah, ajoelhando-se
para depositar a espada aos pés dela. -Juro servi-la,
obedecê-la, morrer pela senhora se for necessário.
- Aconteça o que acontecer?
- Aconteça o que acontecer.
- Lembrarei desse juramento. Rezo para que nunca se
arrependa de tê-lo feito - Dany o fez se levantar. Pondo-
se na ponta dos pés para lhe chegar aos lábios, deu um
leve beijo no cavaleiro e disse: - É o primeiro da minha
Guarda Real.
Conseguia sentir os olhos do khalasar postos nela ao
entrar na tenda. Os dothrakis resmungavam e lançavam-
lhe estranhos olhares de soslaio com seus olhos escuros e
amendoados. Dany compreendeu que a julgavam louca.
Talvez estivesse. Saberia em breve. Se olhar para trás,
estou perdida,
O banho estava escaldando quando Irri a ajudou a
entrar na banheira, mas Dany não vacilou nem gritou.
Gostava do calor. Fazia-a sentir-se limpa. Jhiqui
aromatizara a água com os óleos que Dany encontrara no
mercado em Vaes Dothrak; o vapor subia úmido e
odorífero. Doreah lavou-lhe os cabelos e os escovou,
soltando os nós e os desembaraçando. Irri escovou-lhe as
costas. Dany fechou os olhos e deixou que o cheiro e a
tepidez a envolvessem. Sentia o calor ensopando a região
machucada entre as coxas. Estremeceu quando a
penetrou, e sua dor e rigidez pareceram se dissolver.
Flutuou.
Quando ficou limpa, as aias ajudaram-na a sair da água.
Irri e Jhiqui secaram-na, enquanto Doreah lhe escovava
os cabelos até deixá-los como um rio de prata que lhe
descia pelas costas. Perfumaram-na com florespeciaria e
canela; uma gota em cada pulso, atrás das orelhas, na
ponta dos seios pesados de leite. O último salpico
destinava-se ao sexo. O dedo de Irri foi tão ligeiro e
fresco como o beijo de um amante ao deslizar
suavemente entre seus lábios.
Depois, Dany mandou todos embora para que pudesse
preparar Khal Drogo para a sua última cavalgada às
terras da noite. Lavou-lhe o corpo e escovou e oleou seus
cabelos, fazendo correr os dedos por eles uma última vez,
sentindo-lhes o peso, recordando a primeira vez que os
tocara, na noite da cavalgada de casamento. Seus
cabelos nunca foram cortados. Quantos homens podiam
morrer sem nunca terem cortado os cabelos? Submergiu
o rosto neles e inalou a escura fragrância dos óleos.
Cheirava a erva e a terra quente, a fumaça, a sêmen e a
cavalos. Cheirava a Drogo. Perdoa-me, sol da minha
vida, pensou. Perdoa-me por tudo o que fiz e por
tudo o que tenho de fazer. Paguei o preço, minha
estrela, mas foi alto demais, alto demais